arrow_backVoltar

Festival do CCSP 2014

Paulo e Chico Caruso falam e cantam sobre humor, arte e política

21.09.14


Foi no clima de uma conversa de bar, recheada pela bagagem artística, humorística e política da dupla, que Paulo e Chico Caruso empolgaram a plateia que se reuniu na sala MINI do Festival do CCSP, na tarde deste domingo (21). Os irmãos gêmeos, de pai, mãe, talento e atuação profissional, foram entrevistados por Rodrigo Fernandes, do Jacaré Banguela, sob curadoria da O2 Filmes.



Com muito bom humor, os irmãos começaram se apresentando em perfeita sincronia para falar que não eram tão iguais assim. “Eu trabalho para um grande jornal do Rio e uma grande revista de São Paulo. Ele não. Ele trabalha para um jornal do Rio e uma revista de São Paulo”, disseram em uníssono.



A dupla falou um pouco sobre o início da intimidade com os desenhos, que viriam a torná-los dois dos principais chargistas e cartunistas da atualidade, no Brasil. O avô deles era quem, aos quatro anos de idade, os pegava pela mão para mostrar os primeiros traços. “Me ensinaram que se você desenha uma galinha e escreve embaixo ‘isso é uma galinha’, você é um desenhista de merda”, brincou Paulo.



Ambos cursaram Arquitetura na universidade, mas acabaram fugindo da profissão muito no início. “Eu tive que fazer um estágio no fim do curso e, no trabalho, me deram uma perspectiva do Palácio do Morumbi para fazer. Quando estava desenhando no papel vegetal, com régua T e todos aqueles apetrechos, percebi que era muito melhor trabalhar à mão livre e fui trabalhar em jornal”, contou Chico. “Eu também. Na mesma época, fui trabalhar no escritório do Figueiredo Ferraz. Um dia, cortei um pedaço enorme do dedo com uma folha de papel e desisti. Fui trabalhar em jornal”, completou Paulo.



Juntos, cantaram a canção “Bom é ser presidente”, composta como sátira política contra José Sarney e que com o passar dos anos foi ganhando novos versos dedicados a Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Depois, engataram um improvável dueto com Paulo no piano passando por Frank Sinatra e Chico no vocal, interpretando o ex-presidente Lula, “traduzindo” a canção do artista americano.



"Todo mundo agora é politizado, especialmente com a aproximação da eleição. Você não pode nem falar em quem vai votar que já arruma uma briga. O problema é que ninguém se lembra mais de quatro anos arás”, contextualizou Chico.



Paulo aproveitou para lembrar uma experiência política negativa que mudou sua forma de encarar o trabalho. “Uma vez, recebi uma pauta de um jornal para desenhar um urso comunista atrás de uma TV sintonizada na Cultura. Era uma campanha contra o Vladmir Herzog, e eu não sabia. Só descobri e entendi depois de publicado. Depois disso, decidi que só desenho se souber para quem é, o que é e qual o texto acompanha minha imagem”.



Chico também explicou as diferenças entre cartum, charge e caricatura. “Se você foca o infinito e pega temas universais, é cartum. Se pega um plano médio, é charge. E se chega mais perto, no close, é a caricatura".



Outro momento importante foi a análise dos irmãos sobre a mídia impressa e a digital. “Me sinto muito ameaçado pelo fim da mídia impressa. Agora, por exemplo, meu trabalho está muito mais presente nas mídias digitals. Continuo fazendo em papel e tinta, mas ele é publicado eletronicamente”, revela Paulo. Perguntado sobre se não gosta do digital, ele brincou: “eu já tinha raiva do fax”.



Chico destacou que as charges nasceram para a mídia impressa e, apesar de terem papel garantido nas mídias digitais, correm o risco de perderem impacto caso sejam mal aplicadas. ”Um meio não acaba com outro. O livro não acabou com o cinema, que não acabou com a TV. O que temos é amor pelo papel. A charge não pode ser ampliada com a ponta dos dedos. O tamanho influencia diretamente em seu sentido. O nome ‘charge’ vem da palavra carga, precisa ter tamanho, impacto. Ela tem que ser um tiro de canhão”, explicou.



Por Karan Novas



Serviço:

Festival do Clube de Criação de São Paulo

Quando: dias 20, 21 e 22 de setembro (sábado, domingo e segunda-feira)

Onde: Cinemateca Brasileira - Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, em São Paulo

Dúvidas: 55 11 3030-9322

ccsp@ccsp.com.br

www.festivaldoccsp.com.br

 


Festival do CCSP 2014

/