Acesso exclusivo para sócios corporativos

Ainda não é Sócio do Clube de Criação? Associe-se agora!
Acesso exclusivo para sócios corporativos
Ainda não é Sócio do Clube de Criação? Associe-se agora!
Montagem de filmes envolve prazo, emoção e solidão
No começo, tudo era na moviola, na sala escura, em um processo praticamente todo feito à mão, inclusive com uso de fitas adesivas. Depois vieram mais e mais recursos até chegarmos às atuais e incríveis tecnologias de cortes, trilhas, ajustes e efeitos para a produção de filmes. Nessa passagem de tempo, talvez seja a emoção o principal elemento para manter uma referência artesanal ao trabalho de edição e montagem.
Foi com essa pegada emocional, com muitas abordagens pessoais, que aconteceu o painel "O trabalho artesanal na montagem e na edição", realizado durante o Festival do Clube de Criação 2023.
Com o auditório lotado, o encontro reuniu os montadores/editores Fernanda Krumel, Márcio Hashimoto e Rami D’Aguiar, que foram entrevistados por Patrícia Gaglioni, head de produção da agência Wieden + Kennedy, e pelo diretor de cena Felipe Mansur, sócio da Alice Filmes.
A montadora Fernanda Krumel, que atuou inicialmente com filmes publicitários antes de entrar no cinema, abriu a sessão contando sobre a contribuição da sua experiência em publicidade na área de longas-metragens. Ela trabalhou na edição de filmes como "Anna" (Heitor Dhalia/2021), "Hebe - A Estrela do Brasil" (Maurício Farias /2019) e "Dalua Downhill" do qual também é diretora com Rodrigo Pesavento (2013).
"Tive dificuldade para largar alguns vícios da publicidade", contou, lembrando que em uma das primeiras cenas de diálogo que montou em um longa, chegou a eliminar muitas falas relevantes por estar condicionada à limitação do tempo publicitário. Também fez cortes, revistos posteriormente, que prejudicariam o ritmo da montagem.
Ritmo, aliás, foi o mote da pergunta feita por Felipe Mansur para contextualizar o trabalho de montagem de Marcio Hashimoto, que em sua filmografia tem trabalhos como “Bingo - o Rei das Manhãs” (Daniel Rezende/2017), "O filme da minha vida" (Selton Mello/2017), "Era o Hotel Cambridge" (Eliane Caffé/2017) e "Faroeste Caboclo" (René Sampaio/2013).
"Ritmo é tudo. Não só na montagem, mas em qualquer tipo de narrativa", sintetizou Hashimoto. "É o ritmo que carrega para o que você quer passar, seja em um vídeo para o YouTube ou em um longa", diz, afirmando que o ritmo da montagem é muito específico para cada situação e para cada momento. "A melhor montagem é quando o estilo do montador desaparece. Se alguém reconhece que um determinado filme foi montado por fulano, isso não é bom", explicou Hashimoto.
O editor Rami D’Aguiar, que conquistou prêmios em festivais internacionais e realizou trabalhos para marcas como Nike, Corona, Jeep e Budweiser, também reforçou o lado emocional do "ritmo de montagem". "Fizemos um projeto recente, com duração de cinco minutos e meio. O ritmo da montagem e a música são de uma fluidez só e faz parecer que a peça tem menos de cinco minutos. Ritmo é sensibilidade", afirmou.
Ramir também abordou a complexidade de transformar longos roteiros em formatos de 30 segundos. "Esse é o nosso maior desafio. A gente recebe roteiro de duas páginas para fazer 30 segundos. O shooting board já vem com 70 quadros", descreveu. "É fundamental pensar em formatos separados. Você pode ter uma peça de 30 e 60 segundos. Acima disso, tem que ser pensado de uma forma separada ou você não entende nada. É um monte de cortes, é como colocar São Paulo dentro de Osasco", comparou.
Sobre o desafio de montar roteiros em 30 segundos, Fernanda Krumel avalia que há uma "guerra entre informação e sentimento". "A agência quer muitos sentimentos e o cliente quer incluir uma série de protocolos. O que queremos fazer? Um filme informativo ou de engajamento? Isso tem de ser definido antes", defendeu.
Ainda na seara dos 30 segundos, o editor Rami D'Aguiar destacou o trabalho de Fábio Fernandes, ex-sócio e ex-presidente da F/Nazca Saatchi&Saatchi, que produziu memoráveis campanhas para clientes como Skol, Philco, Nike e Leica. "O Fábio é um mestre, tinha todo o processo criativo na cabeça, aprendi muito com ele, que tinha um timing de montagem como poucos profissionais do mercado", avaliou Rami.
O debate sobre montagem também abordou a baixa participação de mulheres nesse segmento do mercado, os problemas de prazo e a natureza solitária do trabalho do montador.
Sobre maior presença feminina, Fernanda Krumel classificou o assunto como uma questão "muito complexa". "O ambiente corporativo é um território masculino. Mudou muito desde quando eu comecei, mas não é um ambiente muito acolhedor e convidativo", diz.
Sobre prazos e cronograma, Rami afirmou que tem trabalhado com frequência para o mercado dos EUA e que há uma grande diferença em relação às práticas de produção no Brasil. "Lá, temos um tempo maior para digerir e estudar o material. O trabalho de edição caracteriza-se por tentativa e erro. Aqui no Brasil não temos muito esse tempo de errar. Está tudo cada vez mais insano", avaliou.
Ainda segundo Rami, a publicidade está saindo do formato de 30 segundos para algo mais flexível, com dois minutos, "mas sem pensar no prazo." "Falta um pouco de respeito com o cronograma. Começam muitas refações que deveriam ter sido pensadas antes", disse.
Para Fernanda, o boom de produções para streaming ajudou a melhorar os processos envolvendo prazos e cronogramas no mercado audiovisual. Já para Hashimoto, "tempo é tudo que falta".
Solidão e inspiração
Hashimoto definiu a montagem como um processo caracterizado por uma espécie de antítese, pois ele avança e volta ao mesmo tempo. "É cumulativo, mas você dá dois passos para frente e um para trás. Você assiste e quer voltar para ver como ficou. Você precisa de pequenos ajustes que só são possíveis de serem encontrados se você estiver imerso no processo. Cai numa coisa quase esotérica, mas não é." Fernanda afirmou que, no processo de montagem, ela sente solidão. "Solidão é a melhor parte", avaliou Hashimoto.
A uma pergunta sobre inspiração, Fernanda respondeu que a dedicação ao trabalho a deixou com menos tempo para viver um "catálogo de experiências sentimentais". Contou que percebeu essa relação sobre usufruir do tempo ao se tornar mãe e também no período pós-pandemia. "A amamentação provocou uma inspiração sobre o tempo para viver", compartilhou.
Marcello Queiroz
11º Festival do Clube de Criação
Patrocinadora premium: JCDecaux.
Patrocínio master (ordem alfabética): Globo, Google e Santeria.
Patrocínio/apoio (ordem alfabética): Adludio, Ama, Antfood, Apro+Som, At Five Gin, Barry Company, Broders, Canal Market, Canja Audio, Cervejas Avós, Cine, Droga5, Halley Sound, Kraft Heinz, Lucha Libre Áudio, Memorial da América Latina, Mr Pink Music, Monkey-land, Mugshot, My Mama, Nós - Inteligência e Inovação Social, O2 Filmes, Paranoid, Piloto TV, Publicis Groupe, Spotify, Surreal Hotel Arts, Tribbo, Unblock Coffee, UOL, Vati, Warriors VFX e WMcCann.