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Esteja pronto para ouvir seu futuro (Rafael Rocha)
O que é a inspiração? Algo que vem e vai, o confronto com a folha em branco, insights criativos, aquele segundo que muda todas as horas anteriores, ou simplesmente uma união de tudo isso, de uma forma não organizada? Talvez seja difícil responder em palavras concretas, mas uma certeza eu tenho: é muito difícil prevê-la.
Porém, uma coisa é certa. Olhando pela minha perspectiva, e no que eu acredito ser a base da criatividade, a busca pela inspiração é constante: nas coisas que eu consumo, no ser e estar curioso, nas pessoas e marcas que admiro. É o "repertório embaixo do braço" que conduz os processos do dia a dia.
Meu background de comunicação (e de vida) passa através da música, essa fonte inesgotável de estética, design, audiovisual, histórias e ideias. Muito antes de ter feito faculdade de Publicidade e Propaganda e de fundar a revista Noize, foi ela, a inspiração, que guiou o meu caminho.
Lembro de estar na Feira da Redenção (feira de rua clássica, no coração de Porto Alegre), ainda pré-adolescente, em um domingo qualquer, entre móveis rústicos, artesanatos e antiguidades, e ser surpreendido com a existência daquele disco, que até então nunca havia visto, daquele artista que eu obviamente já havia visto, mas não daquele jeito. Ele estava diferente, e, na capa, em letras arranhadas, dizia "Off The Wall", numa parede de tijolos à vista.
Mas, quando estava pensando em escrever este texto, uma outra história (não minha) veio primeiro à cabeça: lembrei do livro "Creative Quest", de Ahmir K. Thompson, mais conhecido como Questlove, de quando ele encontrou seu destino num estacionamento na parte de trás de uma casa de shows nos Estados Unidos.
Tá bom, isso pode parecer estranho, mas espera, deixa eu te explicar melhor: para quem não o conhece, Questlove é um baterista fantástico e um dos fundadores do The Roots, banda importantíssima na história do hip hop americano, e, como se não bastasse, é também um grande escritor, produtor, DJ, jornalista, diretor de filmes e está diariamente na TV aberta americana, com o The Roots sendo banda fixa do programa "Late Night with Jimmy Fallon".
Mas voltando, neste livro sobre criatividade ele conta que, bem no início da carreira da banda, eles abriram a turnê de um grupo também muito importante, chamado The Pharcyde (para quem não conhece, recomendo assistir ao clássico clipe de "Drop", assista abaixo, dirigido pelo Spike Jonze). Quest sempre foi muito influenciado pelo grupo, e, após ter tocado seu set com o The Roots, estava no estacionamento guardando seus equipamentos. O Pharcyde tocava lá dentro, e, enquanto estava na rua, ele escutava a banda através das paredes grossas do clube. Foi quando o grupo começou a tocar uma música que nunca havia tocado e algo chamou sua atenção. Era "Bullshit", que estaria presente no futuro disco da banda, e era diferente de tudo que ele já havia ouvido. Talvez pela não linearidade do beat, ou por aquela batida estranha, que tinha um bumbo que balançava e saia do padrão, feito louco. Ele imediatamente interrompe o que estava fazendo, e entra no clube para "adicionar visão" ao que estava escutando, e, segundo as palavras do próprio, ele simplesmente “congelou”. Era nada mais, nada menos, que uma produção assinada por um moleque (ainda) desconhecido de Detroit, chamado Jay Dee (posteriormente conhecido como J Dilla), que viria a produzir o próximo disco do The Pharcyde e mudar por completo os rumos do hip hop mundial.
Essa mudança não se refletiu somente no impacto da cena do rap, mas também inspirou Questlove a transformar o seu próprio estilo de tocar bateria, reverberando em seus projetos futuros. Se antes ele mirava em ser um profissional "perfeito", preciso a cada batida, foi somente após ouvir e entender como J Dilla abordava os beats que entendeu que podia abrir espaço para o acidente, o inesperado. E isso tudo foi fundamental na construção de uma ideia (ou de um jeito de tocar).
A partir daí, a história foi escrita. Esse novo jeito de tocar, de abordar as ideias através da bateria e do beat, se refletiu não somente em trabalhos maravilhosos do The Roots, mas também em álbuns que Questlove tocou como baterista ou coproduziu, como os clássicos "Voodoo", de D'Angelo, e "Mama's Gun", de Erykah Badu. Discos curiosamente gravados ao mesmo tempo no seminal estúdio Electric Lady, em Nova York, fundado por Jimi Hendrix nos anos 1960. Já, isso é história para outro texto.
Desde que li este livro, essa parte em particular me chamou muito a atenção: como conduzir nossas ideias para onde nossos caminhos já se cruzaram anteriormente, e como a nossa inspiração nem sempre vai ser confortável, premeditada, fácil de assimilar.
Posso traçar um paralelo com aquele guri na Brique da Redenção, de como o meu caminho mudou ao levar aquele disco pra casa, mergulhar na história de Michael Jackson. Isso me levou ao Prince, à guitarra, ao rock, ao punk rock e à música brasileira. E, simplesmente, à vontade de unir toda essa gana de engolir as coisas e transformar em outras que aquele piá gostaria de consumir.
É muito importante saber de onde a gente veio, pra saber pra onde a gente vai.
Portanto, esteja pronto para ouvir o seu futuro ou mudar de rumo em um estacionamento de bar, numa feira de discos ou em qualquer outro lugar. Se alguma coisa te deixa inquieto, principalmente em um campo criativo que você domina, preste atenção. É sua mente te dizendo que há mais para ser processado do que a sua reação superficial.
Rafael Rocha, sócio fundador da Noize, diretor de criação e de cena
Leia o texto anterior da seção "O Espaço é Seu", aqui.
Clube de Criação 50 Anos