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Festival de Criação 2017

Inclusão e responsabilidade: 'podemos ajudar a criar qualquer mundo'

17.09.17

Se no ano passado Simone de Beauvoir, Raymond Williams e outros intelectuais balizaram a discussão sobre “Inclusão de gênero e diversidade na propaganda” (leia aqui), este ano a segunda rodada sobre o tema, novamente mediada pelo diretor do Festival MixBrasil e country manager da Hornet, André Fischer, citou outros pensadores, como Umberto Eco, e deu um passo a mais dentro deste fundamental tema, que precisa estar em constante discussão.

Participaram do painel Ana Cortat (cofundadora da Hybrid CoLab - New Behaviour Driven); Johnny Luxo (DJ); Maíra Liguori (cofundadora da Think Eva); Neon Cunha (diretora de arte e designer gráfica) e Samantha Almeida (marketing communications / digital content strategy da Avon).

Fischer lembrou que, do ano passado para cá, as marcas se movimentaram mais no sentido de dialogar com as chamadas 'minorias' sociológicas (LGBT, mulheres, negros) - muitas das quais de minoria não têm nada - ou buscando se “apropriar” dos discursos dessas comunidades, seja levantando bandeiras ou se conectando com o movimento de modo visível.

"Este ano, por exemplo, três marcas – Skol, Uber e Doritos – patrocinaram a Parada Gay em São Paulo. Skol, como parte do processo de modernização de seu discurso, buscando se descolar de uma imagem machista do passado. O Uber se contrapondo a um movimento que houve nas redes sociais, de mulheres que sofreram constrangimento dentro dos carros. E Doritos, mais controversa, colocando corante nos salgadinhos para participar da Parada", cutucou Fischer. "Também vimos marcas dando voz a essas comunidades de forma mais explícita, como AvonNatura", citou.

Fischer também lamentou o fato de o Santander ter cancelado a exposição Queermuseu, em Porto Alegre, esta semana, depois que alguns grupos, como o MBL, reclamaram do conteúdo da mostra. “Na primeira manifestação contrária, o Santander Cultural ‘arregou’ e cancelou a exposição, um fato lamentável. Infelizmente, depois disso, outras instituições culturais estão revendo seus investimentos nesse sentido”, contou.

As marcas que buscam dialogar com a diversidade não estão falando com nichos, segundo observou Maíra Liguori, uma vez que as mulheres são 51% da população e as que se declaram negras, 54%. “Não são nichos, estamos lidando com a maioria, que é muito diferente da gente. Hoje a publicidade é feita por pessoas muito homogêneas, que querem se conectar com esse público de forma estereotipada e até preconceituosa”, avaliou. “Antes, poucas pessoas falavam sobre diversidade nas redes sociais, e não havia uma organização da demanda dos movimentos. Agora, as marcas são mais cobradas, as posturas são questionadas. É necessário que as marcas olhem os consumidores como pessoas”, refletiu.

Ana Cortat contribuiu com um olhar sobre a comunicação, ao defender que a disciplina não está em crise – “o modelo de publicidade, o modelo de remuneração sim - mas a comunicação não, pelo contrário”, defendeu. “As marcas investem milhões por ano em comunicação. O problema é que elas criam resíduos e os deixam no pior lugar possível: naquilo que as pessoas acreditam”, lamentou. “Com a comunicação, nós ajudamos a criar o mundo que a gente vive hoje, então, da mesma maneira, podemos ajudar a criar qualquer mundo. Isso não é uma conversa nova. Umberto Eco já falava sobre isso. A Teoria do Agendamento (Agenda Setting) aborda isso. Se isso é verdade – e os estudos indicam que é – podemos criar uma agenda positiva”, aprofundou Ana.

A executiva destacou ainda que vivemos em “um dos momentos mais relevantes de erosão do sistema de crenças da sociedade em todo o mundo: as pessoas não acreditam nas empresas, nas instituições, na mídia. Além disso, as pessoas estão quatro vezes menos dispostas a mudar de ideia e contrariar sua posição inicial, ou seja, há um crescimento do conservadorismo”, lamentou.

A responsabilidade da comunicação para a construção da própria sociedade, ao ter o poder de definir demandas para as marcas, também foi observado pela executiva de marketing da Avon, Samantha Almeida. “Não acredito em marcas ativistas, mas na construção de pontos de diálogos. Buscamos transformar demanda de consumo em possibilidade para marcas. Hoje, o público exige das marcas demandas de posicionamento e o que elas significam dentro desse processo”, comentou. “Se determinada marca não o representa, não coloque seu dinheiro lá”, completou.

Neon, diretora de arte transgênera, contou que é formada em Publicidade desde 1988 e nunca foi contratada por uma agência. “Como as marcas querem falar com a gente, se não chamam a gente para falar?”, questionou. “Sua empatia não me comove. Eu quero seu respeito. Quero que você me contrate”, sublinhou, acrescentando que ainda é necessário um longo caminho para que o Brasil evolua em relação ao tema. “O país não chegou em 2017, parou na colônia. A população LGBT é executada o tempo todo. Estamos morrendo agora”, finalizou.

Ana Cortat disse que este era para ela o principal painel do Festival do Clube. Não porque ela estava nele, mas pela importância da temática. Pura verdade. Mas ressaltou também que era infelizmente a única mesa que abordaria o assunto este ano no evento. Esclarecemos aqui que isso não é, de forma alguma, verdade. Além desta, haverá este ano no Festival do Clube inúmeras mesas discutindo o tema: por exemplo uma sobre responsabilidade ao criar, uma sensacional reunindo Mulheres da Quebrada, outra chamada Revolução Pós-Gênero e ainda outra sobre Moda sem Gênero. Outra mesa 100% feminina reunirá diretoras de cena debatendo a dor e a doçura de serem quem são. Painéis como 'Humor nos tempos da Cólera' e 'Estamos construindo agências atraentes para as próximas gerações?' também irão visitar os temas discutidos acima. Confira a programação completa com cuidado e atenção aqui.

Valéria Campos

Serviço:

Festival do Clube de Criação 2017

Quando: Setembro, 16, 17 e 18 - 2017
Local: Cinemateca Brasileira - São Paulo – Brasil
Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino

www.festivaldoclubedecriacao.com.br

https://www.facebook.com/clube.clubedecriacao

https://twitter.com/CCSPoficial

#FestivaldoClube2017

Hosted by: Clube de Criação

Temos Shuttle para quem quiser estacionar no Hotel Pullman Ibirapuera
Horário: das 08h30 às 22h30
Trajeto: Pullman / Cinemateca / Pullman
Tarifa especial para o Festival: R$ 35 o período

Festival de Criação 2017

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