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O Espaço é Seu

Sobre trilhas e maratonas (Otavio de Moraes)

01.04.25

Lembro bem do exato momento em que sentei à frente do piano para compor minha primeira trilha sonora para cinema, anos atrás. Aquele silêncio inicial, a concentração seguida de um respirar fundo, como se estivesse nos instantes da largada de uma grande maratona, me faziam questionar se o que eu tinha experimentado até então – nos projetos fonográficos e nas trilhas para publicidade – tinha alguma comparação. Afinal, o salto de compor para um filme de 30 segundos, em relação a um filme de quase duas horas de duração, era considerável.

Como em muitos momentos na vida, esse questionamento foi sendo respondido com o tempo. Cena a cena, filme após filme, fui me dando conta de que, seja qual for o tamanho da obra audiovisual, o verdadeiro desafio não está na sua secundagem, e sim na função que a música exerce dentro da singularidade de cada obra: a de ajudar a contar uma história através das notas musicais, dos timbres, das texturas e, principalmente, a acessar o “inconsciente coletivo” das pessoas, provocando nos expectadores a emoção exata que se pretende. Na intangibilidade da música, em que tudo é tão subjetivo, esse lugar específico que compartilhamos coletivamente (aquelas duas notas do John Williams se repetindo em “Jaws” dão medo, não?) é o nosso ouro. O nosso troféu ao final de uma corrida, seja ela curta ou de muitos quilômetros.

Além disso, gosto de pensar na complementariedade que obras audiovisuais publicitárias e cinematográficas trazem entre si, para quem está em sua cadeia criativa/produtiva. Ambas nos provocam a alimentar constantemente um repertório de referências, acessando a mesma “musculatura criativa”, que vai se fortalecendo a cada projeto. O preparo físico para uma corrida curta é tão fundamental quanto o preparo para uma maratona. E, quanto mais se corre em uma ou outra, melhor a nossa performance.

Em meus quase 30 anos de atuação no mercado, trabalhando como produtor musical de grandes projetos, incluindo a liderança de grandes equipes em shows ao vivo (Rock In Rio, por exemplo), muitas trilhas sonoras para grandes marcas e para longas premiados (a trilha original de Elis, a minha primeira maratona como compositor, foi premiada no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro), posso facilmente concluir que, se antes a pergunta era “é muito diferente compor para cinema?”, hoje é “o que seria do Otavio compositor de cinema se não fossem as corridas da publicidade?”.

Otavio de Moraes, sócio, diretor e produtor musical da Blood Audio

Leia texto anterior da seção "O Espaço é Seu" aqui.

Clube de Criação 50 Anos

 

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